A METODOLOGIA DA PESQUISA NO DIREITO E MAURICE MERLEAU-PONTY

A METODOLOGIA DA PESQUISA NO DIREITO E MAURICE MERLEAU-PONTY

 

 

Cynthia de Araújo Lima Lopes

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Bacharela em Direito pela Universidade Federal do Amazonas. Professora da Universidade Federal da Bahia. Mestranda em Direito Público pela Universidade Federal da Bahia. Juíza Federal.

 

Fabiano Pimentel

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Bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Advogado Criminalista. Especialista em Ciências Criminais pela UFBA. Mestrando em Direito Público pela UFBA. Professor  da Fundação Dois de Julho, da Associação Educacional Unyahna, da Faculdade de Direito das Faculdades Integradas da Bahia e da Faculdade Dom Pedro II. É Professor, também, dos Cursos de Pós-graduação em Ciências Criminais da UNIFACS.

 

Resumo

Este artigo encontra-se voltado à exposição sucinta do pensamento de Maurice Merleau-Ponty, com a indicação dos principais fundamentos de sua filosofia e de suas obras mais marcantes. Dedica-se, primacialmente, à análise da fenomenologia da percepção, a partir de uma releitura que faz da fenomenologia concebida por Edmund Husserl, demonstrando-se a influência deste filósofo idealista no pensamento de Merleau-Ponty, destacando-se que a fenomenologia constitui uma corrente filosófica e um  método que consiste em buscar a compreensão crítica dos fenômenos, constituindo, assim, valioso instrumento cognitivo, que prioriza não a experiência em si, mas o significado da experiência vivida, dentro da análise fenomenológica mundana apregoada por Merleau-Ponty, que não parte da consciência, mas sim do corpo definido de outra forma. Demonstra a importância do método fenomenológico  concebido por este filósofo  na pesquisa no direito. 

 

Abstract

THE METHODOLOGY OF RESEARCH IN LAW AND MAURICE MERLEAU-PONTY

This paper aims to expose briefly the thought of Maurice Merleau-Ponty, indicating the main foundations of his philosophy and of his most remarkable works. It is devoted, firstly, to the analysis of the Phenomenology of Perception, from a re-reading that Merleau-Ponty does of the phenomenology conceived by Edmund Husserl. The present work also demonstrates the influence of this idealistic philosopher on the thought of Merleau-Ponty, emphasizing that the phenomenology is a philosophic current and it is a method that consists in seeking the critical understanding of the phenomena. Therefore, the phenomenology consists in a valuable cognitive tool, which prioritizes not the experience itself, but the meaning of the lived experience, inside the worldly phenomenological analysis, conceived by Merleau-Ponty, that doesn’t part from the conscience, but from the body defined differently. The paper demonstrates, finally, the importance of the phenomenological method conceived by this philosopher in law research.

 

 

 

SUMÁRIO: 1.Introdução - 2. Merleau-Ponty: vida e obra – 3. O resumo do pensamento filosófico de Merleau-Ponty 3. Aplicação do pensamento do autor na metodologia da pesquisa em direito – 4. Conclusões - Referências

 

1. INTRODUÇÃO

 

Este artigo, inicialmente, trata de pontuar os aspectos mais importantes da curta trajetória deste filósofo existencialista francês, bem como apresentar uma síntese de suas principais obras, como a Estrutura do Comportamento e a Fenomenologia da Percepção. Cuidou Merleau-Ponty, com inegável brilhantismo, de fazer uma releitura da fenomenologia teorizada por Husserl, partindo não propriamente da consciência, mas do corpo em uma perspectiva redimensionada, distanciando-se de Husserl, que a concebeu como estudo da consciência e dos objetos, tendo como lema: volta às coisas mesmas, mediante a utilização da redução eidética, ou da “epoché”,[1] como preferem alguns fenomenólogos.

Dedica-se Merleau-Ponty a criticar o empirismo e cientificismo. Traz ao lume a idéia de interioridade, afirmando que é do interior do mundo que percebo o mundo, considerando que a percepção é uma conivência entre mim e o que percebo e como uma espécie de linguagem, como uma das vias para a compreensão do outro.

Sua filosofia encontra-se voltada para a significação dos fenômenos e à inserção do homem no mundo, na realidade de sua existência. A fenomenologia, de outro lado, constitui um método de investigação científica que é fiel à busca do significado da experiência, configurando-se um método crítico por excelência, de enorme valia para a pesquisa na seara do direito, como precioso instrumento cognitivo.

 

2. MERLEAU-PONTY: VIDA E OBRA

 

Maurice Merleau-Ponty nasceu em 14 de março de 1908, em Rochefort-sur-Mer, no departamento de Charente-Maritime, na França, num meio de médicos e de oficiais. Seu genitor morre às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Estudou nos liceus Janson-de-Saily e Louis-le-Grand e, em 1926, tornou-se aluno da Ecóle Normale Supérieure em Paris, graduando-se em filosofia em 1930. Lecionou no Liceu de Beauvais de 1931 a 1933, no Liceu de Chartres de 1934 a 1935 e na Escola Normal Superior de 1935 a 1939[2].

De 1935 a 1939 serve no 5º regimento de infantaria como segundo-tenente do exército francês. Depois, ensinou durante quatro anos no Liceu Carnot e participou da resistência contra a ocupação nazista. Infelizmente, muito do filósofo emergiu das ruínas das duas Guerras Mundiais e os horrores destes conflitos[3].

Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, Merleau-Ponty defendeu as idéias do sistema vigente na União Soviética, porém, mudou seu pensamento ao ver o abuso de poder praticado por este país. Essas ações violentas da URSS foram duramente criticadas por muitos dedicados socialistas, como Merleau-Ponty.

Em 1945, apresenta para o título de doutor duas obras fundamentais: La struture du comportement e La phénoménologie de la perception, e, em 1948, foi nomeado professor de filosofia da Universidade de Lyon. Em La struture du comportement, Maurice Merleau-Ponty contrapõe sua concepção de comportamento à concepção trazida pela da psicologia americana. Para ele a filosofia não poderia ser pensada sem a psicologia. Em La phénoménologie de la perception pretende fundar uma fenomenologia particular que não parta da consciência, mas sim do corpo definido de outra maneira[4].   

Nos idos de 1947 publicou um conjunto de ensaios chamado de Humanisme et terreur ("Humanismo e Terror"), defendendo o comunismo soviético e O Elogio da Filosofia (1953). Em 1955 Merleau-Ponty publicou mais ensaios comunistas, Les Aventures de la dialectique ("As Aventuras da Dialética").

Já em 1949 foi chamado a lecionar na Sorbonne, em Paris. Ocupou cátedra de psicologia e de pedagogia. Durante o ano de 1950-1951, ensina psicologia geral, les sciences de l´homme et la phénoménologie e um curso de psicologia da criança, les relations avec autrui chez lénfant. Estes cursos são reeditados em 1962[5].

No ano de 1952 ganhou a cadeira de filosofia no Collège de France. De 1945 a 1952 foi co-editor (com Jean-Paul Sartre) do jornal Les Temps Modernes. Ele era intimamente associado a seu antigo colega, Jean-Paul Sartre, que havia introduzido Merleau-Ponty nas obras de Edmund Husserl. Todavia, rompe com Sartre em 1953, por causa da simpatia de Sartre pelo partido comunista francês e pela União Soviética (URSS) de Stalin, acusado de vários crimes contra a população camponesa, pelos grupos de oposição de seu país.

Em janeiro de 1961 publica o artigo “O olho e o Espelho”. Neste artigo explica que em toda percepção estamos diante do visível, e dotados de visão em face do visível. O que se vê e o que é visível alternam-se mutuamente. O visível invoca e evoca o que se vê[6].  

Dois anos antes de morrer Merleau-Ponty inicia a redação de último trabalho intitulado “O visível e o invisível” que ficou inacabada. Até a sua morte, Merleau-Ponty permaneceu marxista, mas um crítico do partido soviético. No ano de 1961 publica Sinais. Morre em Paris, em 03 de março de 1961 de trombose coronariana.

 

3.  RESUMO DO PENSAMENTO FILOSÓFICO DE MERLEAU-PONTY

 

Maurice Merleau-Ponty inicia o desenvolvimento do seu pensamento filosófico com base nos ensinamentos de Edmund Husserl. Seu pensamento reflete as idéias da fenomenologia e do existencialismo, havendo, em determinados pontos, dificuldades em separá-los.

De Husserl, Merleu-Ponty conserva a idéia de que o pensamento nunca existe sem estar direcionado para o objeto: é a idéia de intencionalidade. Além de Husserl, sofreu a influência de Heidegger, que orienta a fenomenologia para a ontologia. Sofreu também a influência do estudo das estruturas. Seu pensamento retorna a Descartes e deve analisado juntamente com a percepção dos fenômenos[7]

Afirma ainda que o espírito do esforço de Husserl tem em vista resolver simultaneamente a crise da filosofia, das ciências humanas e das ciências em geral, da qual ainda não saímos. Para Merleau-Ponty essa crise tende ao irracionalismo. Husserl entendia que os fundamentos de todas as ciências poderiam ser repensados para encontrar um caminho entre o logicismo e o psicologismo[8].

Pode-se afirmar que a fenomenologia é o estudo sistemático da experiência da vida, a descrição ingênua e tão plena quanto possível do que é e não é a coisa. O fenômeno é revelado como o projeto pelo qual o sujeito produz as significações do seu meio[9]. É o estudo das essências, é uma filosofia que recoloca as essências na existência para compreender as afirmações da atitude natural; mas é também a filosofia para a qual o mundo é sempre ‘déja la’ antes da reflexão. É a tentativa de uma descrição direta de nossa experiência tal como é, sem levar em conta a sua gênese psicológica e as explicações causais de cientista[10].

Para Maurice Merleau-Ponty a fenomenologia consiste no desejo de recolher todas as experiências concretas do homem da forma como se apresentam na história, e não só as suas experiências de conhecimento, mas também suas experiências de vida e encontram neste desenvolvimento dos fatos um sentido para que não mostrem como mera sucessão sem orientação[11].

Merleau-Ponty rejeita a tradição filosófica ocidental da "verdade transcendente” para dar mais importância à experiência humana. Assim, sugere que os filósofos foram limitados pelas suas próprias vivências e experiências físicas.

Chega a afirmar que o filósofo não é um homem sério. Sua virtude é a claudicação. Chegando a dizer que os filósofos são simplesmente homens e não profissionais da ação[12].

Criticou o empirismo e o intelectualismo. Para ele, faltava ao empirismo a conexão interna entre o objeto e o ato que ele desencadeia. Em relação ao intelectualismo afirmou que faltava a contingência das ocasiões de pensar. Para Merleau-Ponty, no primeiro caso a consciência seria muito pobre e no segundo caso, seria rica demais para que algum fenômeno pudesse solicitá-la. O empirismo, na visão do autor, não vê o que precisamos saber e o intelectualismo não vê que precisamos ignorar o que procuramos[13].

Na visão do autor, as coisas deveriam ser entendidas da forma como efetivamente eram vistas, e não como a ciência as descrevia. Para isso, fundamentou seu pensamento na percepção imediata do mundo:

 

O mundo da percepção, isto é, aquele que nos é revelado pelos nossos sentidos e pelo uso da vida, parece, à primeira vista, o que nos é mais bem conhecido, porque não são necessários instrumentos nem cálculos para a ele ter acesso; porque nos basta, aparentemente, abrir os olhos e deixar-nos viver para nele penetrarmos[14].

Dava elevado valor ao que se percebia. Chegando a considerar a verdade aquilo que se via:

 

[...] O mundo é o que vemos e que, contudo, precisamos aprender a vê-lo. No sentido de que, em primeiro lugar, é mister nos igualarmos, pelo saber, a essa visão, tomar posse dela, dizer o que é nós o que é ver, fazer, pois, como se nada soubéssemos, como se a esse respeito tivéssemos que aprender tudo[15].

 

Porém, para perceber as coisas Merleau-Ponty assevera que precisamos vivê-las:

 

Para que percebamos as coisas, é preciso que as vivamos. Todavia, nós rejeitamos o idealismo da síntese porque ele também deforma nossa relação vivida com as coisas. Se o sujeito que percebe faz a síntese do percebido, é preciso que ele domine e pense uma matéria da percepção, que organize e ligue ele mesmo, do interior, todos os aspectos da coisa, quer dizer, que a percepção perca sua inerência a um sujeito individual e a um ponto de vista, que a coisa perca sua transcendência e sua opacidade. Viver uma coisa não é nem coincidir com ela nem pensá-la de uma parte à outra. Vê-se então nosso problema. E preciso que o sujeito perceptivo, sem abandonar seu lugar e seu ponto de vista, na opacidade do sentir, dirija-se para coisas das quais antecipadamente ele não tem a chave, e das quais todavia ele traz em si mesmo o projeto, abra-se a um Outro absoluto que ele prepara no mais profundo de si mesmo[16].

 

 

Por isso, as coisas que estão diante de nós não são simples objetos neutros que contemplamos, cada uma delas simboliza para nós certa conduta, suas recordações provocam sentimentos agradáveis ou desagradáveis. Por isso que os gostos de um homem, o seu caráter, a atitude que toma diante do mundo e do seu exterior, se lêem nos objetos que escolheu, nas cores preferidas ou nos lugares preferidos de passeio. As nossas relações com as coisas não são relações distantes, cada uma delas fala ao nosso corpo e à nossa vida e vivem em nós como tantos outros emblemas que apreciamos. O homem está investido nas coisas e as coisas investidas no homem[17]

A este mundo percebido, Merleau-Ponty acrescenta a cultura. O mundo percebido não é apenas o conjunto das coisas naturais, é também formado pelos quadros, as músicas, os livros, ou seja, tudo que se relaciona ao mundo cultural: e ao mergulharmos no mundo percebido, longe de termos estreitado o nosso horizonte, longe de nos termos restringido à pedra ou à água, reencontramos o meio de contemplar na sua autonomia e na sua riqueza original as obras de arte, da palavra e da cultura[18].

De acordo com sua concepção, todas as nossas ações e pensamentos são conseqüências históricas. Para ele haveria um dualismo entre o passado e o presente: “Mas como permanecer nesse dualismo? É o dualismo do passado e do presente que, evidentemente, não é o absoluto[19]”.

A história, na visão de Merleau-Ponty, não é apenas um objeto fora do alcance dos homens, é a satisfação do homem enquanto sujeito. A consciência verdadeira ou falsa que tomamos é um fato histórico, e não mera ilusão e, portanto, há aí uma verdade a ser extraída, desde que consigamos levar o relativismo ao seu limite[20]. A história é história de sincronias sucessivas, e a contingência do passado invade o sistema sincrônico[21]

Realizou estudos sobre o capitalismo e marxismo. Afirmou que no capitalismo os homens são mercadorias, em virtude da criação de uma classe de expropriados:

 

Não é o filósofo que vai buscar, numa concepção do ‘reino da liberdade’, os critérios para um julgamento do capitalismo, é o capitalismo que suscita uma classe de homens que não podem se manter vivos sem negar a condição de mercadoria se percebendo como mercadoria, distinguindo-se ao mesmo tempo dela, recusando as leis ‘eternas’ da economia política, descobrindo, sob as supostas ‘coisas’ os ‘processos’ que elas mascaram, a dinâmica da produção, o todo social como produção e reprodução em si mesmo[22].

 

 

De acordo com a idéia de que a verdadeira natureza humana nunca deixa de mudar, Merleau-Ponty descreve a filosofia como o ato de colocar em prática a verdade. O verdadeiro não é nem a coisa e nem o homem que se vê e nem a unidade global do mundo sensível ou inteligível. A verdade é objetiva, determinável pelas medidas ou pelas variáveis ou entidades determinadas pelo homem em virtude uma ordem fática. Tais determinações nada devem ao nosso contato com as coisas, exprimem um esforço de aproximação que não teria sentido algum em relação à vivência, já que esta não pode ser considerada em si mesma[23].

Para ele, antes do homem pensar sobre o que significa a existência humana, ele deve existir fisicamente. Isso amplia o conceito de auto-definição de que o homem precisa, antes de tudo, possuir um corpo físico e um cérebro, antes de criar teorias sobre a existência.

Merleau-Ponty afirma que nossos pensamentos nos movem a agir fisicamente. Porém, até o nosso próprio pensamento é um processo físico e químico de sinais elétricos que se desenvolvem no cérebro. Sobre o pensamento afirmou:

 

Diz-se que um pensamento foi expresso quando as palavras convergentes que a ele visam são bastante numerosas e eloqüentes para designá-lo sem equívoco para mim, autor, ou para os outros, e para que todos tenhamos a experiência de sua presença carnal na palavra. [...] Digo que sei uma idéia quando se institui em mim o poder de organizar à sua volta discursos que têm sentido coerente, e esse próprio poder não deve a que eu tivesse tal idéia em minha posse e a contemplasse face a face, mas sim, ao fato de eu ter adquirido um certo estilo de pensamento [24].

 

Sem o desenvolvimento físico, não existe uma auto-concepção. Se auto-conceito em si é um ato físico, então estamos sempre em risco de reduzir a nossa visão da humanidade para o estudo empírico do cérebro.

Seu objetivo, na estrutura do comportamento, era compreender as relações da consciência e da natureza: biológica, psicológica ou mesmo social. Os seres humanos e nosso mundo estão interligados e são moldados pelo nosso meio ambiente.

Destaca a importância da linguagem. Para Merleau-Ponty a língua dispõe de um certo número de sinais fundamentais, arbitrariamente ligado a significações chaves. Seria um aparelho fabuloso que permitiria exprimir um número indefinido de pensamentos ou de coisas com um número finito de sinais, porque foram escolhidos de maneira a romper tudo o que se pode querer dizer de novo e a comunicar a evidência das primeiras designações de coisas[25].

Os símbolos lingüísticos, se analisados isoladamente nada representam. Entretanto, após a análise das significações e das convenções que definiram estes significados iniciais, estes signos passam a ter importância comunicativa.

Para o autor, o pensamento se basta em si mesmo, apenas se exterioriza por uma mensagem que não o contém, e que o designa somente sem equívoco para um outro pensamento que é capaz de ler tal mensagem, pois estas mensagens têm os mesmos sinais e a mesma significação com base em convenções firmadas anteriormente. O só homem compreende os sentidos das palavras, pois sabe anteriormente o seu significado[26].

A principal virtude da linguagem é despertar o pensamento. Com o entendimento da linguagem o receptor compreende o significado das palavras, entende sua estruturação, e chega ao pensamento do emissário, compreendendo seu próprio espírito. Mesmo depois que as palavras são lançadas no papel, elas ganham significado e, além de compreender o pensamento do seu autor, elas servem como forma de inspiração para novos pensamentos que surgem numa forma criativa de idéias[27].

As reflexões de Merleau-Ponty sobre a fenomenologia e história deram origem a duas obras, dentre as já citadas, que são essenciais à compreensão de seu pensamento: A Estrutura do Comportamento e A Fenomenologia da Percepção. Nesta, traz à balha uma nova concepção de fenomenologia, sob enfoque diferente do de Hegel e mesmo de Husserl. Na realidade, Hegel foi o primeiro filósofo a utilizar o termo fenomenologia para tratar do conhecimento que a consciência tem de si através dos fenômenos, tidos até então como a coisa em si, como entendia Kant, para quem apenas as coisa naturais, objeto de estudo das ciências da natureza, constituíam fenômenos. Passou-se, a partir de Hegel, a compreendê-los, não apenas como as coisas corpóreas, naturais, mas também as coisas situadas além da matéria, como a matemática, a lógica, a cultura, os valores morais, sociais, políticos, religiosos, os costumes, o direito, a história e tudo o mais que cerca o homem em sua existência na terra, como passível de seu conhecimento.

Husserl, que foi o grande teórico da fenomenologia,  mantém inalterado o conceito de fenômeno de Kant e Hegel, ampliando-o, para considerá-lo como essência.

 

O que é fenômeno? É a essência.

O que é essência? É a significação ou o sentido de um ser, sua idéia, seu eidos. A Filosofia é a descrição da essência da consciência (de seus atos e correlatos) e das essências das coisas. Por isso, a Filosofia é uma eidética – descrição do eidos ou das essências. Como o eidos ou a essência é o fenômeno, a Filosofia é uma fenomenologia.[28]

 

Para Husserl, portanto, a fenomenologia é uma “ciência das essências”, e não de meros fatos, viabilizada pela redução eidética,[29] que consiste exatamente em separar os fenômenos psicológicos de suas características ao fito e conduzi-los ao plano genérico. Isso equivale a transformar os fenômenos em essências. A redução fenomenológica, na perspectiva adotada por Husserl, torna-se fundamental para compreendermos a nossa relação com o mundo, sendo necessário “colocar entre parênteses”, ou conservar um isolamento provisório para que nossa visão impregnada pelo senso comum, possa enxergar sem as lentes dos saberes ordinários e genéricos, fazendo-se necessário um distanciamento para melhor apreciar o mundo e nossas relações com ele. É como se estivéssemos  diante de uma paisagem, em que se faz necessário distanciarmo-nos dela para melhor contemplá-la.

A redução fenomenológica requer um sair-se de si mesmo e colocar em suspenso o conhecimento das coisas do mundo exterior a fim de concentrar-se a pessoa exclusivamente na experiência em foco, porque esta é a realidade para ela.

 

Na redução fenomenológica, a Noesis é o ato de perceber. Aquilo que é percebido, o objeto da percepção, é o noema. A coisa como fenômeno de consiciência (noema) é a coisa que importa, e refere-se a ela a conclamação “às coisas mesmas” que fizera Husserl. “Redução fenomenológica” significa, portanto, restringir o conhecimento ao fenômeno da experiência de consciência, desconsiderar o mundo real, colocá-lo “entre parênteses”, - o que no jargão fenomenológico não quer dizer que o filósofo deva duvidar da existência do mundo – como os idealistas radicais duvidam – mas sim que a questão para a fenomenologia é antes o modo como o conhecimento do mundo acontece, a visão do mundo que o indivíduo tem.[30]

 

Não obstante, Merleau-Ponty faz questão de enfatizar a impossibilidade de uma redução completa.    

A fenomenologia é,  assim, o estudo descritivo dos fenômenos no modo em que se manifestam.  Ela é compreendida como uma corrente filosófica e como um método, tendo como principal característica o caráter descritivo das essências. Husserl encarrega-se de assentar que se trata de ciência descritiva das essências das vivências.

Merleau-Ponty, a par de tecer acirradas críticas ao empirismo e ao cientificismo,[31] como se vê na sua obra Fenomenologia da Percepção, parte da fenomenologia conceituada por Husserl – a quem considerava um mestre – , e procede a uma reelaboração deste conceito,  preconizando que a fenomenologia  é uma filosofia que situa as essências na existência. Concebe uma fenomenologia que não utiliza como ponto de partida a consciência, mas sim o corpo, visto não como um objeto.

 

O novo cogito é o corpo. Mas não convém entender com isso o “corpo-objeto”, que designa meu corpo por mim representado do modo como é visto pelos outros. Realmente, o fato fundamental, sempre menosprezado, é que eu sou meu corpo. Viver, existir por meio do próprio corpo não é sinônimo de ver o corpo objetivo. A noção de objeto se forma quando há afastamento em relação à realidade. Meu corpo não está ao lado dos objetos; ele é intenção para os objetos. O reconhecimento puro do objeto ocorre no próprio ato que o nomeia. O verdadeiro cogito é haver consciência de alguma coisa.[32]

Utilizando esta concepção do corpo-sujeito, Merleau-Ponty supera o dualismo cartesiano, ao tempo em que rejeita o formalismo da consciência e fazendo do corpo o sujeito da percepção. Para ele, a relação do sujeito e do objeto não é esta relação de conhecimento de que falava o idealismo clássico, e no qual o objeto aparece sempre como constituído pelo sujeito, mas uma relação de ser segundo a qual, paradoxalmente, o sujeito é o seu corpo, seu mundo e sua situação, e de certa forma estabelece com estes uma permuta.[33]

 

Faz importantes investigações em torno da percepção, que é o modo pelo qual a consciência, por intermédio do corpo, relaciona-se com o mundo, com as coisas que estão à volta do indivíduo, não deixando de significar uma vivência, uma experiência, que é essencial à fenomenologia. Na realidade, considera a percepção como o campo de revelação  do mundo, um verdadeiro campo de experiência, no qual se sujeito e objeto se acham indissoluvelmente ligados.

Este pensamento revela-se com extrema clareza, quando apregoa, no prefácio de sua obra Fenomenologia da Percepção, que  “tudo o que sabe a respeito do mundo, mesmo pela ciência  o sei a partir de uma visão minha ou de uma experiência de mundo sem a qual os símbolos da ciência não significariam nada.”

A percepção, como deixa expresso nesse prefácio, não é uma ciência do mundo, não é nem mesmo um ato, uma tomada de posição deliberada; ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam  e ela é pressuposta por eles. O mundo não é um objeto do qual possuo comigo a lei de comunicação; ele é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas percepções explícitas. A verdade não “habita” apenas o “homem interior”, ou, antes, não existe homem interior, o homem está no mundo, é no mundo que ele se conhece.  

 

Reivindica para o mundo percebido uma espécie de interioridade. É do interior do mundo que percebo o mundo. A percepção é uma conivência entre mim e o que percebo. Assim se me revela o sentido de um quadro. A percepção já é uma espécie de linguagem. É uma das vias para compreender o outro.[34]

 

Vale enaltecer que a noção de mundo, tal como apregoada por Merleau-Ponty, configurou uma das principais contribuições da fenomenologia para a filosofia contemporânea. Denomina o mundo humano de “intermundo”, asseverando que não apenas homens e coisas, mas esse intermundo, que chamou de história.[35]

É inegável que o  pensamento de Merleau-Ponty sofreu forte influência de Husserl. Ambos eram fenomenólogos, mas divergiram quanto  à compreensão de experiência, que é fundamental à fenomenologia. Husserl a concebeu a partir da consciência. Merleau-Ponty a compreende do ponto de vista mundano de encarnação corporal intersubjetiva  como uma situação histórica.

Conserva de Husserl a idéia da intencionalidade,[36] segundo a qual o pensamento nunca existe sem estar direcionado para o objeto-pensamento. Não obstante, rejeitou a teoria de conhecimento intencional de Husserl, fundamentando sua teoria  no comportamento corporal e na percepção. Este ponto de partida, foi que possibilitou a Merleau-Ponty estabelecer um liame entre organização física da percepção e sua interpretação cultural. A intencionalidade, para ele, deixa de estar ligada à consciência para se constituir em um dos atributos de um sujeito mergulhado no mundo.    

Na argumentação ensaiada no prefácio da Fenomenologia da Percepção, Merleau-Ponty consagra a sua concepção de fenomenologia, afastando-se um tanto da fenomenologia husserliana, sustentando  que:

 

A fenomenologia é o estudo das essências; e todos os problemas, segundo ela, voltam a definir as essências: a essência da percepção, a essência da consciência, por exemplo. Mas a fenomenologia é também uma filosofia que recoloca a essência na existência, e não pensa que se possa compreender o homem e o mundo de outra forma, que não seja a partir de sua “facticidade”[37]. É uma filosofia transcendental que coloca em suspenso, para compreendê-las, as afirmações da atitude natural, mas é também uma filosofia para a qual o mundo já está sempre “ali”,  antes da reflexão, como uma presença inalienável, e cujo esforço todo consiste em reencontrar este contato ingênuo com o mundo para dar-lhe enfim um estatuto filosófico.

A palavra fenomenologia significa antes de mais nada um conceito de método. Ela não caracteriza a consistência de fato do objeto da indagação filosófica, mas seu como... Esse termo expressa um lema que poderia ser assim formulado: às coisas mesmas! – por oposição às construções soltas no ar e aos achados casuais; em oposição à admissão de conceitos apenas aparentemente verificados e aos falsos problemas que se impõem de geração em geração como problemas verdadeiros” (Sein und Zeit, § 7). Portanto, o que a fenomenologia mostra é aquilo que, acima de tudo e na maior parte dos casos, não se manifesta, o que está escondido, mas que é capaz de expressar o sentido e o fundamento daquilo que, acima de tudo, e na maior parte dos casos, se manifesta”.[38]

 

 

A fenomenologia, para este filósofo, é um método de descrever a natureza de nossa percepção em contato com o mundo, estando voltada a proporcionar uma descrição direta da “aventura humana na terra”.[39]

Trabalha, outrossim, com o conceito de verdade, encarando-a como algo fugidio que surge e desaparece na vastidão do mundo. Considera-a como algo dinâmico, no incessante movimento de constituição, sempre pronto a metamorfosear-se, cuja essência não é passível de ser apreendida de modo absoluto e definitivo, e não

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